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Artigo de Avelino Jesus
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O pesado e esquecido efeito da distância e dos transportes na economia portuguesa

Avelino de Jesus

Uma parte, largamente maioritária, dos economistas, quando pretende caracterizar brevemente a economia portuguesa, opta, numa postura intrigante, por esta fórmula: “Portugal é uma pequena economia aberta …”
Este chavão, que nunca foi verdadeiro, é cada vez mais incompreensível à luz da simples observação dos factos. Tomemos o quadro em anexo com os dados mais comuns e acessíveis sobre a dimensão e a abertura das economias europeias.

Entre os 27 países da UE, Portugal é o 15º país em dimensão económica e o sexto mais fechado, se considerar o indicador do comércio. Dos 16 países, sobre os quais existem dados comparáveis sobre o peso das firmas multinacionais no emprego, Portugal é o 15º país mais fechado ao capital estrangeiro. É claro que se quisermos usar uma fórmula breve, devemos antes dizer: Portugal é um país médio e fechado
Apesar do aparente entusiasmo geral com a União Europeia, que muitos usam para testemunhar a nossa abertura ao exterior, o facto é que a política económica portuguesa se tem pautado, no essencial, por uma assinalável oposição ao exterior. Isto explica, em parte, o facto de permanecermos uma economia fechada.
Mas na política económica não está toda a compreensão do nosso isolamento.

Vários estudos recentes têm permitido compreender outro pesado constrangimento: a desgraçada posição geográfica do país. Longe dos mercados e das fontes de abastecimento, Portugal suporta, como poucos, um dos aparentes paradoxos da globalização: a crescente influência negativa da distância sobre a criação de riqueza em geral e, em particular, sobre o comércio.

Alguns economistas mais ingénuos, seguidos por largo coro, apressaram-se a anunciar o fim da distância1. Esta ilusão baseia-se no facto dos custos de transporte em termos reais e absolutos terem diminuído com os avanços tecnológicos.

 

Dimensão e abertura das economias da União Europeia

Dimensão e abertura das economias da União Europeia
Dimensão (Ordem)

 

 

Países

 

 

(A) PIB 1000 milho~es de euros (2006)

 

Comércio externo em % do PIB (2006) % do emprego das FMN em relação ao emprego total (2005)

(B) Importação

(C) Exportação

(D)= (B) +(C)

(E) Indústria

(F) Serviços

27º

Malta

5,1

79,4

69,0

148,4

-

-

26º

Estónia

13,1

85,9

79,6

165,5

-

-

25º

Chipre

14,5

50,6

47,0

97,6

-

-

24º

Letónia

16,2

62,3

47,6

109,9

-

-

23º

Lituânia

23,7

65,4

58,2

123,6

-

-

22º

Bulgária

25,1

75,9

584

134,3

-

-

21º

Eslovénia

29,7

65,2

64,4

129,6

-

-

20º

Luxemburgo

33,1

119,0

150,3

269,3

39,3

-

19º

Eslováquia

43,9

81,1

76,8 157,9

-

-

18º

Hungria

89,9

68,8

67,9 136,7

32,4

15,9

17º

Roménia

97,1

43,3

33,0 76,3

-

-

16º

Rep. Checa

113,1

69,8

71,9 141,7

37,8

22,7

15º

Portugal

155,2

37,2

28,8 66,0

12,6

4,7

14º

Finlândia

167,9

36,4

42,2 78,6

16,5

11,9

13º

Irlanda

175,8

68,5

80,5 149,0

48,0

22,3

12º

Grécia

195,2

29,6

23,0 52,6

-

-

11º

Dinamarca

219,5

43,5

48,4 91,9

14,4

6,1

10º

Aústria

257,9

54,0

56,6 110,6

-

-

Polónia

271,5

37,4

37,1 74,5

29,5

17,1

Suécia

306,0

41,3

48,9 90,2

33,8

33,4

Bélgica

314,9

83,0

85,8 168,9

33,1

14,2

Holanda

527,9

59,7

66,1 125,8

25,1

8,9

Espanha

976,2

30,7

25,6 56,3

15,6

9,5

Itália

1,475,4

26,1

26,2 52,2

12,4

6,1

França

1,792,0

27,9

25,9 53,8

26,4

10,5

Reino Unido

1,906,4

29,9

26,2 56,1

27,6

12,0

Alemanha

2,309,1

35,4

40,5

75,9

15,2

6,5

Fontes: Eurostat (colunas A a D; OCDE (colunas E e F).

Porém, o impacto negativo da distância é grande e está a aumentar, pelo menos desde o fim dos anos 80 do século XX 2. A mudança tecnológica falhou na sua pretensão de contrariar a separação espacial.

A elasticidade do comércio em relação à distância variou, segundo os autores referidos na nota de pé de página abaixo, entre -0,81 em 1970 e -0,99 em 2005. Outros autores concluem que a distância é o mais importante determinante dos custos do comércio e que a elasticidade dos volumes do comércio, em relação à distância, varia entre -0,9 e -1,5.

É certo que as mercadorias e as informações são levadas cada vez mais longe por efeito da evolução tecnológica e da globalização, mas a verdade é que os custos de transporte diminuíram apenas em valores absolutos mas não em proporção do valor total dos produtos. De facto, os custos de transporte em valor absoluto diminuíram em todas as distâncias e não especialmente no longo curso. A globalização aumentou a concorrência e a substituabilidade dos produtos, o que provoca o aumento do valor absoluto da elasticidade do comércio à distância. O peso da distância em Portugal é, geralmente, muito subestimado. Porém, em 2005, o indicador “acesso aos fornecedores” representava 59% da média da OCDE, contra 71% da Espanha, 73% da Finlândia, 84% da China , 87% da Suécia e 256% para a Bélgica e 236% Holanda.

Os recentes aumentos do preço do petróleo, o acentuar das decisões em favor das grandes obras públicas ligadas aos transportes e a recente paralisação do país devido a uma classe profissional do sector dos transportes, reforçam a necessidade de sublinhar o papel da geografia do país na composição da sua posição competitiva. Sem se pôr em causa a real importância do comércio externo, não pode deixar de se realçar a relevância das medidas que favoreçam actividades menos consumidoras em transportes e os limites, pouco avaliados e compreendidos, mas que seguramente são elevados, que a solução exportadora encerra.

1 Veja-se a título de exemplo: Frances Cairncross, The Death of Distance: How the Communications change our lives, Orion Business Books, Londres, 1997.
2 Entre os decisivos estudos vejam-se:
- Hervé Boulhol, Alan de Serres, “Have developed countries escaped the curse of distance ? ”, Working Paper, Economics Department, OECD, Maio de 2008;
- S. Golub, B. Tomasik, “Mesures of International transport Costs for OECD Countries “, Working Paper, Economics Department, OECD, Junho de 2008;
H. Overman, S. Redding, A. Venables, “The Economic Geography of Trade, Production and Income: A Survey of Empirics”, in E. Kwan-Choi, J. Arrigan (eds.) , Handbook of International Trade, J. Basil Blackwell, 2003 ”.

Director do ISG – Instituto Superior de Gestão
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