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Avaliar uma universidade: critérios e obsessões

25 de Janeiro, 2018

Muito se tem discutido sobre “rankings” de instituições de ensino superior, sejam elas universitárias ou politécnicas. As dimensões a ter em conta na análise para a construção de um “ranking” não são consensuais.

A universidade, enquanto conceito, começou por ser uma escola de transmissão de saber tendo evoluído, em bem, para a transmissão e debate desse mesmo saber. Desde o ano 3500 a.C., Eduba foi a primeira escola que transmitia ensinamentos de Matemática e de escrita suméria. Com Platão, 387 a.C., a Academia ensinava também ginástica e Filosofia. No século V, na Índia, em Bihar, a Universidade Nalanda chegou a ter mais de 10.000 alunos e a ensinar áreas de Anatomia, Astronomia. A primeira universidade da era moderna (UNESCO) foi fundada em 859 d.C. em Marrocos, a Universidade de Karueein. Em 970 d.C., surge no Cairo a segunda universidade mais antiga. Na Europa, a Universidade de Bolonha, fundada em 1088, é a referência mais antiga. Posteriormente foram proliferando várias instituições em especial no período medieval, com a missão do estudo do trivium (Gramática, Retórica, Dialética) e do quadrivium (Aritmética, Geometria, Astronomia e Música).

O denominador comum da universidade, no espaço e no tempo, é o facto de ser feita de humanidade, de saber e de crescimento pessoal. Por estas razões, além da transmissão de conhecimento, deve ser um espaço de interrogação constante, de irreverência e de desenvolvimento da consciencialização de cidadania.

É difícil construir “rankings” pois a maior parte das métricas importantes dificilmente serão matematizáveis de tão humanas que devem ser. O índice de felicidade, a capacidade de crescimento, a apreensão de valores de cidadania, ou o crescimento pessoal nunca se podem avaliar com a objetividade desejável.

Nos “rankings” existentes, as métricas utilizáveis atualmente são desprovidas de lógica e de pertinência do verdadeiro significado de universidade. Tomemos como exemplo a investigação e a empregabilidade. No primeiro caso, a obsessão pelas publicações, como medida de investigação, é de tal forma triste que os professores deixam de se preocupar com pedagogias ou qualidade na transmissão do conhecimento. A maior parte dos artigos ficam a ganhar pó nas prateleiras e muitos são pagos só para cumprir rácios de publicações. Atualmente, muitos doutoramentos de qualidade menor são obtidos em prestigiadas universidades e muitos doutoramentos de grande qualidade são obtidos em universidades menos prestigiadas. Muitos investigadores são péssimos professores e vice-versa. Um “ranking” que não mede a capacidade de transmissão de conhecimento ou que desvaloriza a pedagogia é imediatamente inútil. Também não se pode medir a necessidade de investigação num curso de Ciências Aplicadas (Bioquímica, p.e.) com as Ciências Sociais (Gestão, p.e.). No segundo caso, devo dizer que muitos cursos superiores se frequentam pelo mero prazer de saber e de aprender. A empregabilidade é obviamente importante, mas não comparável entre as diversas áreas do saber. Não é legítimo um “ranking” comparar empregabilidade de cursos de Filosofia ou História com determinados ramos das engenharias ou medicinas, por exemplo.

Por isso, mais do que tudo, a universidade é um prazer, uma família, uma fase marcante de socialização e não é só feita de pseudo-intelectualidades de investigação em cativeiro ou em regime de clausura.

A universidade é, e deve continuar a ser, um espaço de dinâmicas de intervenção, transmissão de conhecimento e de relações humanas, que forme bons cidadãos, multidisciplinar, enfim, académica, em toda a sua essência.

Director do ISG – Business& Economics School

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

in Jornal de Negócios a 25/01/2018

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