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Ser feliz no trabalho ou o trabalho de fazer os outros felizes?

30 de Julho, 2019

Quando perguntamos a qualquer pessoa, e em particular a um jovem que tem o futuro pela frente, qual a seu maior desejo, a resposta mais provável é: ser feliz.

A pesquisa de explicações para a necessidade de alcançar um “estado de felicidade”, um conceito amplo e nunca conseguido na sua plenitude, tem desde há dois mil anos sido um dos focos de estudo das principais disciplinas das ciências sociais, desde a filosofia, a sociologia, a psicologia até à antropologia.

Tal enfoque ganhou ainda maior dimensão a partir do momento que o trabalho passou a ser uma componente da vida humana e não somente algo que era realizado como um meio de satisfazer necessidades ou até mesmo por um mero prazer.

A organização cientifica do trabalho, que surgiu na mudança do modus vivendi do homem recoletor ou comerciante, para um homem máquina que hoje e no futuro foi transformado no homem robotizado, agudizando-se os estados psicológicos de depressão, ansiedade, insegurança e de falta de felicidade, foi criticada pelas primeiras evidências da necessidade de proporcionar felicidade aos trabalhadores, através dos investigadores da Escola das Relações Humanas (Elton Mayo, 1932).

A partir daí e até muito recentemente tem-se tentado explicar que a produtividade é uma variável dependente do estado de motivação dos trabalhadores e, por isso, se vem procurando encontrar razões e técnicas que sejam motivadoras, emboras fiquem as dúvidas sobre o maior o menor sucesso das mesmas.

Muitos investigadores têm-no procurado fazer através da explicação de tipos de liderança ou de organização do trabalho. Todavia, isso também pode ser questionado como sendo um consequente em vez de um antecedente dos resultados obtidos com o desempenho dos trabalhadores.

O que sucede é que, graças ao desenvolvimento tecnológico, foi possível descobrir mais, nos últimos 30 anos, sobre o funcionamento do cérebro, que explicam o estado de espírito dos seres humanos, do que em dois mil anos de investigação através de modelos comportamentais.

Das diversas descobertas, vários estudos de endocrinologistas e neurocientistas explicam o estado de “bem-estar” como um processo biológico desencadeado pelo cérebro que, por consequências das situações vividas no dia a dia, produz um conjunto de substâncias químicas que fazem as pessoas sentirem o estado de felicidade.

Essas descobertas identificam quatro substâncias químicas que, segundo a pesquisadora Loretta Breuning (2012), “quando o cérebro emite uma dessas substâncias, as pessoas sentem-se bem”. Assim, o designado “quarteto da felicidade” é composto pelas seguintes substâncias: Endorfina, Serotonina, Dopamina e Oxitocina.

Segundo a investigadora, se, por um lado, alguns alimentos como o picante ou dançar e cantar, rir ou fazer exercício físico são motivadores da produção de Endorfinas, ou se recordar momentos felizes, apanhar sol ou praticar exercícios aeróbicos são provocador da produção de Serotonina, ou simplesmente rapidamente encontrar um lugar para estacionar o carro provoca a produção de Dopamina, ou ainda se dar e receber presentes provoca a produção de Oxitocina também, por outro lado, o trabalho em equipa é gerador de Endorfinas, o sentir-se importante por reconhecimento social é gerador de Serotonina, o dar um primeiro passo rumo a um objetivo cuja meta é cumprida é geradora de Dopamina e, por fim, construir relações de confiança, dando “pequenos passos” e “negociando expectativas” para que ambas as partes possam concretizar o vínculo emocional é geradora de Oxitocina.

Ou seja, o dia a dia dos seres humanos no relacionamento social, e em particular no trabalho, desencadeia, sistematicamente, processos químicos (que dependem de indivíduo para individuo) que explicam o seu estado de sentimento de bem estar e que o processo motivacional resulta de um estimulo inconsciente (como um vicio) que provoca o gerar de endorfinas.

Dito de outra forma, quando uma chefia felicita (de forma sincera) um colaborador por um trabalho realizado, o estado de bem estar que o colaborador sente resulta de um processo químico automaticamente desencadeado pelo cérebro. Estes processos biológicos são, por isso, também explicativos das teorias sobre a gestão das emoções, no contexto da sistematização efetuada por Daniel Goleman (1990).

Segundo o investigador, se um líder conseguir conjugar as suas capacidades intelectuais com as cinco habilidades emocionais de autoconhecimento, autocontrolo, automotivação, empatia e relacionamento intersocial consegue ser mais eficaz no alcance dos objetivos, fomentar o desempenho com satisfação e realização dos colaboradores e consequentemente aumentar a produtividade e rentabilidade da organização.

Com efeito, as habilidades emocionais sistematizadas por Goleman são as capacidades que uma vez desenvolvidas e treinadas pelos líderes são fomentadoras da produção das substâncias químicas identificadas como quarteto da felicidade, pelo que um líder que consiga criar um elevado nível de empatia e relacionamento intersocial com os seus colaboradores, alcança um nível de envolvência (líder envolvente) que no dia a dia se traduz num estado de felicidade partilhado por toda a equipa (Ramos C., 2018)

Para comprovar estas novas abordagens, a investigadora Leonor Fraga, na sua tese de mestrado em Gestão do Potencial Humano (2019) no ISG, realizou um trabalho empírico com 318 quadros intermédios e superiores de um Instituto Público Português, em que avaliou o contributo para o estado de felicidade originado pelo estilo de liderança, pelas condições de trabalho ou pelo relacionamento e empatia com a chefias.

E os resultados obtidos evidenciaram que 54,1% da amostra concorda ou concorda totalmente com o facto da sua motivação para o exercício das funções resultar da empatia que tem com a sua chefia e que 61,3% concorda ou concorda totalmente quanto ao facto de se sentir motivado porque a chefia partilha as dificuldades do dia a dia e 60,4% dizem que a sua motivação resulta, em grande parte, da forma fácil de relacionamento com a chefia.

Ou seja, esta investigação vem reforçar as abordagens que sustentam que, mais do que os aspetos relacionados com o estilo de liderança e organização do trabalho, os níveis de empatia e relacionamento entre as partes são os que mais contribuem para melhorar os níveis de felicidade (no trabalho).

Em suma, elevado nível de relacionamento e empatia entre as chefias e os colaboradores são sinónimos de intimidade e consequentemente de confiança entre as partes. Os estados de confiança são geradores de tranquilidade, de ausência de pressão psicológica e como tal, proporcionadores de condições naturais para produção das endorfinas da felicidade. Ou seja, um pequeno trabalho que pode fazer os outros felizes.

Casimiro Ramos, Coordenador do Mestrado em Gestão do Potencial Humano do ISG para a LINK TO LEADERS

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